por Davi de Souza*
Segundo maior PIB do país, maior rota de turismo do Brasil, pólo de difusão cultural, possuídora de belezas naturais e outras tantas características. Esta é a cidade do Rio de Janeiro. De um lado, o Rio parece ser o lugar perfeito para se viver. Por outro, a cidade vive uma situação complicada e sua imagem no Brasil e no exterior está sendo afetada por problemas como a violência, drogas, trânsito caótico etc. Mas como uma cidade consegue conviver com duas realidades tão distintas? É necessário recorrer a evolução histórica para entender esta dicotomia. Leia maisA introdução dos transportes públicos (trem e bonde), possibilitou a expansão da cidade. Principalmente o trem, pois ele abriu caminho para a ocupação de terras (até então, inabitadas) ao norte e ao oeste da cidade. O bonde, ao contrário, apenas aumentou o fluxo para a zona sul. A partir daí, além das diferenças econômicas, o Rio de Janeiro será constituído de diferenças geo-espaciais: os mais ricos morando na zona sul e os mais pobres no subúrbio. (esta era a meta do Plano Agache, arquivado na Era Vargas).
Esta divisão geográfica, evidentemente, não se perpetuou plenamente. A proliferação de favelas próximas a zona sul e ao centro foi um fenômeno decorrente da demanda que a população pobre tinha de residir próximo ao trabalho.
Porém, mesmo próxima de áreas repletas de benefícios urbanísticos, a população favelada (não considere este termo pejorativo) não tem acesso a esses benefícios. O geógrafo Milton Santos considera que “para muitos, a rede urbana existente e a rede de serviços correspondente são apenas reais para os outros (os de classes superior). Por isso, são cidadãos diminuídos, incompletos (os favelados).” Ou seja, mesmo não existindo uma acentuada separação geográfica, os favelados não tem a possibilidade de acesso a esses bens e serviços.
O Rio é uma cidade estratificada socialmente. É claramente perceptível a preferência do Estado em beneficiar das classes de maior poder de aquisitivo, em detrimento do desenvolvimento das áreas pobres (especialmente, a Zona Oeste). Uma prova clara de como a atuação do Estado é presente, foi a construção da Auto-Estrada Lagoa-Barra. Uma obra pública com gastos exorbitantes, que visou a atender a necessidade de expansão da Zona Sul em direção a São Conrado e a Barra da Tijuca.
É evidente que investimentos na Zona Sul e na Barra são importantes, porém as Zonas Oeste e Norte convivem com os maiores e mais urgentes problemas de ordem sócio-econômicos. Pode-se apontar alguns como: urbanização desorganizada, desemprego, aumento do mercado informal, trânsito caótico, poucas opções de entretenimento e lazer, melhoria de estradas e serviços de transportes públicos etc.
Paradoxalmente, o mesmo Estado que sempre atuou em separar ricos e pobres é o mesmo que causa a “união” destes dois segmentos. Com a atução do Estado intensificando as disparidades entre os pólos Sul/Oeste, ocorre a criação de graves problemas como a violência. Este problema não segue a lógica do Estado que preserva a Zona Sul e abandona as demais regiões. A violência é um problema que atinge todo a cidade e que coloca, pela primeira vez, pobres e ricos no mesmo contexto. Assim, o que se nota é que as mesmas disparidades que os separam, resultam em problemas que os unem.
É urgente que se promova uma ação direta sobre as regiões mais pobres do Rio, notadamente a Zona Oeste. A geração de empregos na própria Zona Oeste, pavimentação de estradas, melhoria dos transportes públicos, urbanização organizada e respeitando o meio ambiente são algumas dentre muitas medidas que precisam ser tomadas. Tudo isto para que o Rio de Janeiro seja uma única cidade e não apenas um espaço geográfico retalhado pelos donos do poder.
(*) Davi de Souza é graduando de Comunicação Social da UFRJ
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Veja também: Cidadania apedrejada, por André Portugal e A via que expressa o país, por Davi de Souza




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